Se seu filho está com febre alta, o que você faz? Com certeza, você o leva imediatamente ao médico para receber o tratamento necessário. Doenças físicas costumam mobilizar a família — afinal, é impossível ignorar sintomas como febre alta, tosse ou falta de ar.
Mas, quando se trata da saúde mental, muitos sinais passam despercebidos ou são rotulados como “frescura” ou “fraqueza”. É essencial entender que problemas emocionais também precisam de cuidado, atenção e acompanhamento especializado. Assim como o corpo adoece, a mente também pode precisar de tratamento — e ignorar isso pode trazer consequências sérias para crianças e adolescentes.
Nos últimos anos, o número de crianças e adolescentes enfrentando dificuldades emocionais tem aumentado em todo o mundo — e o Brasil não é exceção.
O aumento dos problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes já era uma preocupação antes mesmo da pandemia de Covid-19. Entre 2010 e 2019, a taxa de mortalidade por suicídio no Brasil, na faixa etária de 5 a 14 anos, mais que dobrou: passou de 0,31 para 0,67 por 100 mil habitantes — um crescimento alarmante de 116% em menos de uma década.
Com a pandemia, as questões de saúde mental se tornaram ainda mais evidentes, o isolamento social, as mudanças na rotina escolar e a alta exposição às telas agravaram quadros de ansiedade, tristeza profunda e, em muitos casos, depressão.
Guilherme Vanoni Polanczyk, psiquiatra da infância e adolescência e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), realizou um estudo online no Brasil com uma amostra de 5.700 crianças durante a pandemia. Os resultados chamaram a atenção ao revelar que 29% das crianças apresentaram sintomas de ansiedade, enquanto 36% demonstraram sinais de depressão.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 16% dos adolescentes brasileiros entre 10 e 19 anos convivem com algum transtorno mental, sendo a depressão uma das principais causas de sofrimento nessa faixa etária. Mesmo assim, ainda existe muito tabu em torno do tema — e muitos pais não sabem identificar os sinais ou como ajudar.
Sinais de alerta para ficar de olho
De acordo com psiquiatras infantis, a depressão em crianças e adolescentes nem sempre se manifesta da mesma forma que nos adultos. Por isso, é essencial observar mudanças sutis no comportamento. Veja os principais sinais:
- Mudanças bruscas de humor
Irritabilidade constante, explosões de raiva ou crises de choro frequentes podem indicar sofrimento emocional profundo. - Isolamento social
A criança ou adolescente começa a se afastar de amigos, perde o interesse em atividades que antes gostava e prefere ficar sozinho no quarto. - Queda no rendimento escolar
Dificuldade de concentração, esquecimento, falta de motivação e queda nas notas podem estar relacionados a um quadro depressivo. - Alterações no sono e no apetite
Dormir demais ou ter insônia frequente, comer em excesso ou perder totalmente o apetite são sinais que merecem atenção. - Falas sobre morte ou falta de sentido na vida
Mesmo que pareçam “bobagem” ou “drama”, frases como “não queria existir” ou “ninguém sentiria minha falta” devem ser levadas a sério imediatamente.
Como agir e ajudar seu filho
- Esteja presente e ouça sem julgamentos
Crie momentos de escuta verdadeira. Deixe seu filho saber que ele pode falar sobre o que sente sem medo de broncas ou críticas. - Procure ajuda profissional
Se perceber sinais persistentes, não hesite em buscar apoio de um psicólogo ou psiquiatra infantil. O diagnóstico precoce faz toda a diferença. - Evite minimizar o sofrimento
Frases como “isso é fase”, “é frescura” ou “você não tem motivo para ficar assim” podem afastar ainda mais a criança ou adolescente. - Mantenha a rotina saudável
Incentive hábitos que ajudam na saúde mental: alimentação equilibrada, sono de qualidade, atividades físicas e momentos de lazer offline. - Apoio da escola e da família
Converse com professores, coordenadores e outros familiares. O suporte de uma rede faz toda a diferença para identificar mudanças e oferecer suporte.
Fique atento, converse, acolha
Depressão não é preguiça, falta de vontade ou drama: é uma doença séria que pode afetar profundamente o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. Quanto mais cedo for identificada, maiores as chances de superação com qualidade de vida.
Se perceber sinais de alerta, procure ajuda. Você não está sozinho — e seu filho não precisa estar também.
Fonte: Revista Crescer
Imagem: Pinterest