O Brasil voltou a figurar entre os 20 países com mais crianças não vacinadas do mundo, segundo um levantamento divulgado pela Unicef e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), agora em julho de 2025.
A lista usa como referência a aplicação da primeira dose da vacina DTP, que protege contra difteria, tétano e coqueluche e serve como indicador do acesso da população aos serviços de imunização.
Em 2024, foram registradas 229 mil crianças com a primeira dose não aplicada, o que equivale a 16,8% do total dessa faixa etária sem cobertura na América Latina e no Caribe.
No ranking global, o país ocupa agora a 17ª posição, situando-se numa colocação mais desfavorável do que nações como Mianmar, Costa do Marfim e Camarões. Na região latino‑caribenha, apenas o México apresenta maior número de crianças sem DTP, com 341 mil não atendidas.
Primeiro retrocesso após avanços
Entre 2000 e 2012, o programa nacional de imunizações brasileiro mantinha cobertura acima de 98% para a primeira dose da DTP. Entretanto, a partir de 2019, o índice sofreu queda acentuada, chegando a 70%.
A pandemia de Covid‑19 aprofundou a retração — em 2021, a cobertura chegou a apenas 68% —, mas mostrou sinais de reversão no ano passado, quando subiu para 91%. Ainda assim, se mantém abaixo do patamar ideal de 95% recomendado pela OMS para interromper a transmissão de doenças preveníveis por vacinação.
Por que isso é preocupante? Riscos de reintrodução de doenças
- Difteria, tétano e coqueluche: A DTP é utilizada como indicador de cobertura vacinal básica. Quando a cobertura cai abaixo de 95%, aumenta o risco de surtos
- Poliomielite: Países com cobertura abaixo do recomendado (ideal ≥ 95%) enfrentam retomada da circulação do vírus. No Brasil, a taxa caiu para cerca de 77% em 2022, levando a preocupação de reintrodução da doença
- Sarampo: A estagnação global na cobertura vacinal (apenas 83% da 1ª dose em 2023) resultou em surtos em mais de 100 países nos últimos cinco anos. Isso demonstra que uma cobertura insuficiente pode reativar a circulação do vírus
- Febre amarela e outras doenças: A queda nas taxas vacinais pode comprometer a imunidade coletiva, aumentando riscos de surtos em áreas endêmicas
Fatores que contribuíram para essa queda
- Desinformação: campanhas antivacina em redes sociais e boatos que reforçam temores infundados sobre segurança e eficácia dos imunizantes;
- Barreiras de acesso: regiões rurais e periferias urbanas com infraestrutura de saúde precária, deslocamentos longos e falta de transporte público adequado;
- Interrupções no fornecimento: atrasos logísticos e problemas na cadeia de frio que reduzem a disponibilidade de vacinas em unidades básicas;
- Recursos limitados: cortes em programas de cooperação internacional, gerando restrições orçamentárias para ações de campo e mobilização comunitária;
O que pode ser feito
- Força-tarefa nacional: o Ministério da Saúde anunciou mutirões regionais, mais equipes capacitadas, lembretes via aplicativos e atuação em locais comunitários (escolas, CRAS, postos)
- Comunicação estratégica: reforço na informação pública e combate à desinformação por meio de campanhas e envolvimento de comunidade
- Acesso facilitado: vacinação fora das unidades de saúde, em casa e em espaços públicos, para alcançar populações vulneráveis.
Fonte: CFF e UNICEF